Torcedor não é bicho

Ontem acompanhei, em tempo real do Lance!, a entrevista do promotor que, nesta semana, oficiou a CBF e a FPF pedindo que o Palmeiras fosse proibido de jogar em seu próprio estádio na última rodada do campeonato Brasileiro.

Estádio este que, depois de ter sido parcialmente vetado pela Polícia para a inauguração contra o Atlético Mineiro, obteve todos os alvarás necessários da Polícia, Bombeiros, Contru etc. e recebeu o jogo contra o Sport, 19/11, bem como os shows de Paul McCartney no dias 25 e 26/11. Ao todo, 140 mil pessoas estiveram no estádio nessas 03 datas, sem que tenha sido registrada qualquer ocorrência significativa, mesmo no jogo em que, na estreia, o Palmeiras perdeu vergonhosamente para o Sport.

Com todo o respeito, os argumentos a justificar uma suposta alteração do local da partida, de tão vazios, não se sustentam ao menor sopro de vento.

Comparar um jogo de futebol a uma operação tática como se a polícia fosse subir algum morro é simplesmente injustificável.

Pode dar errado? Pode. Mas se for pra dar errado, dará no Pacaembu, em Barueri, no Allianz Parque e até mesmo em Alcatraz. Até lá, se pudesse ser realizado o jogo, daria errado em caso de uma trágica derrocada do Palmeiras novamente para a Série B.

O problema, obviamente, passa longe de ser o Estádio e menos ainda a situação que o Palmeiras se encontra no campeonato.

Em 2008, por exemplo, na final do Paulista, jogo de risco nenhum, em que a Polícia adotou medidas como uma das sugeridas na coletiva de ontem – de que pessoas sem ingresso não possam ficar no entorno do estádio – não foram suficientes pra evitar confronto ao final da partida entre polícia e torcedores. Era um dia de festa, o título, ao final confirmado com um sonoro 5 x 0, já tinha sido ganho em Campinas, uma semana antes, quando o Verdão ganhou de 1 x 0 da Macaca, gol de cabeça do Judas.

Outro argumento equivocado é o de que na Turiassu há bares ao lado do estádio, o que não ocorreria no Pacaembu. Talvez se o senhor promotor frequentasse o Pacaembu, iria ver a mesma quantidade de bares servindo torcedores na Praça Villaboim, ou então as incontáveis reuniões de torcedores nas praças ao lado do estádio, sempre regadas a churrasco e cerveja. Na Turiassu vende álcool tanto quanto em qualquer outro estádio de futebol, e nos que não vendem, como no Morumbi, a torcida leva o isopor de casa.

O problema também não é a bebida que, aliás, é vendida em alguns estádios do Brasil, como na Bahia, por exemplo, sem que lá isso se torne motivo de maior violência nos jogos de futebol do que aqui. Muito pelo contrário.

Mas, pra mim, o pior argumento é o de que não existem grades de contenção no Allianz Parque, como se o torcedor tivesse que ficar enjaulado tal como um animal de zoológico, separação sem a qual se veria cena semelhante àquela do menino indiano que caiu na jaula do tigre meses atrás. Admite-se, com esse pensamento, a vala comum de que torcedor é tudo delinquente e devem ser tratados como tal.

Isso porque se está falando da arena multiuso mais moderna do país, com sistemas de imagem de reconhecimento de face que, em questão de segundos, consegue identificar as pessoas que porventura provocarem atos de depredação e/ou vandalismo, tecnologia esta que as autoridades que garantiriam a segurança do jogo no Pacaembu, por exemplo, nem sonham em ter á sua disposição.

No fim da coletiva, vencido pela própria fraqueza da tese, o promotor “garantiu” a partida na nossa casa, sujeita a uma vistoria marcada pra tarde de hoje, em que, não duvido, mais sugestões e exigências descabidas serão propostas.

Que me desculpe o Sr. promotor, mas torcedor não é bicho. A imensa maioria sabe das consequências que uma invasão de campo ou a depredação do patrimônio do clube trarão, e é essa maioria que tem que ser tratada com o devido respeito, seja num jogo com ou sem risco, fazendo valer, inclusive, o Estatuto do Torcedor que garante a esses torcedores, entre outras coisas, a impossibilidade de se alterar o mando de campo com menos de 10 (dez) dias da sua realização.

Por fim, não custa dizer, toda essa preocupação não passa de fumaça, porque o Palmeiras não cairá.

AVANTI PALESTRA!

Publicado em 03/12/2014, em Visão da Arquibancada e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Rogerinho Fumo

    Amém!

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