No Fundo do Poço, e Cavando

Caminhamos para o fim do futebol, senhores.

Chega a notícia de que o camisa 10, o Pingaiada, digo, o Valpinga, digo, o Valdivia, foi punido com 02 jogos pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva, por ter forçado o terceiro cartão amarelo no jogo contra o Paraná. O lance foi a julgamento porque o meia, burro pra carai, anunciou que ia tomar o terceiro cartão antes do jogo e ainda fez piada sobre o fato no fim da partida.

Dois pontos são importantes para a conclusão que empresta título a  esse texto.

O primeiro é que, forçar o cartão é tão ou mais velho que andar pra frente. Não foi o Valdívia quem inventou. Faz parte da malandragem do futebol, sempre que o jogador é convocado, sempre que está na antevéspera de um clássico ou jogo decisivo, os jogadores forçam o cartão pra cumprirem a punição durante a ausência temporária. Cumprem a regra do campeonato e não prejudicam o time. Pronto, assunto encerrado.

Tem uns que forçam o cartão pra não precisar jogar na rodada do Carnaval, pra não ter que viajar pra muito longe, enfim, pra toda e qualquer coisa. Nada que mereça muita atenção.

Forçar o cartão faz parte do jogo, assim como o time pequeno que faz um gol no time grande e passa a fazer cera o resto do jogo, revezando na botinada, fazendo o famoso rodízio de cartões, tudo isso faz parte da malandragem do futebol em geral. É parte do DNA do esporte.

Pra não ficarmos presos a clubismos, pra não acusarem esse texto de teoria da conspiração palestrina, peço que assistam ao lance abaixo:

Na última rodada da fase classificatória da Copa do Mundo de 1962, o Brasil perdia pra Espanha por 1×0, num jogo em que o derrotado voltava pra casa. Foi aí que Nilton Santos, logo depois de cometer o penalti do vídeo acima, deu dois passos pra fora da grande área, e enganou o juiz, que marcou falta no lance. Aquela altura, um gol poderia ter fechado o caixão brasileiro, e o resultado seria uma estrela a menos na camisa da seleção.

Não fosse a malandragem, o Brasil talvez não tivesse sido campeão do mundo de 1962, assim como a Argentina talvez não teria levantado o caneco em 1986:

El Pibe, por sinal, ao final do jogo disse sobre o gol que “Lo marqué un poco con la cabeza y un poco con la mano de Dios”, mas não teve STJD nenhum pra ir lá e anular o gol do Maradona e que poderia ter decretado não ter valido de nada um dos gols mais antológicos na história do futebol (não o demão, mas o segundo, que desempatou a partida). Já parou pra pensar no estrago?

Permitir, portanto, que um Tribunal privado formado por gente que nunca tirou um contra na rua com gol caixote, passe a exercer o fiel da balança entre o bem e o mal, a dizer o que é certo ou errado dentro de campo, a punir a malandragem tão antiga quanto o próprio futebol, é sepultar mais de uma centena de anos daquilo que faz o futebol ser o que ainda é hoje.

O segundo ponto é que um episódio como o de hoje mostra o quanto o rabo está balançando o cachorro no futebol. Autorizar que um apresentador de TV influencie na punição de um jogador de futebol, sem que o próprio árbitro da partida tenha incluído qualquer relevância ao cartão amarelo do atleta na súmula, é o fim dos mundos.

Com o Palmeiras, não é novidade. Já tivemos até delegado da partida anulando gol depois de ter sido avisado da irregularidade do lance pela repórter de campo:

Vejam só que curioso o Sr. André Rizeck dando a entender no video acima que os recursos de TV não podem influenciar as decisões do árbitro da partida. Já influenciar as decisões do STJD, tipo assim, ligando pro presidente do Tribunal pra dedar uma das coisas mais manjadas do futebol, isso parece não ter problema nenhum…

Pois então, quando o jornalista que devia estar ali só pra comentar o jogo começa a influenciar resultado de partidas, a provocar punições pros jogadores, enfim, a participar do jogo – e de forma absolutamente parcial, sem esconder a vontade de prejudicar o rival do time do coração – é que alguma coisa está muito errada.

Fico imaginando Mario Filho, Armando Nogueira, Fiori Gigliotti e tantos outros grandes nomes do jornalismo esportivo se revirando nos seus túmulos de ver tamanho absurdo.

Começa que esse senhor, feito o estrago, sequer teve a coragem de assumir o que disse na oportunidade, adiante reproduzido:

Foram várias vezes que se repetiu “ELE BURLOU A REGRA DO JOGO”, “ELE AGIU DE MÁ-FÉ”, “ELE BURLOU O ESPÍRITO DO CARTÃO”, e blablabla. Isso é defender a punição, especialmente depois de entrevistar o presidente do Tribunal, certo?

Errado, pelo menos pro proprio jornalista:

E esse é o grande problema. Esses Andrés Rizeck que aí estão ultrapassam os limites das redações esportivas, transcendem do outro lado do microfone, e passam a virar protagonistas, interferir nos resultados das partidas, na punição dos jogadores, muitas vezes pautados por suas preferências clubísticas ou pela pauta das emissoras.

Some-se a isso os tira-teimas, os comentaristas de arbitragem, as bolas com chip,  e em breve o futebol virará aquele jogo monótono e bizarro tipo futebol americano, que o jogo pára 3 minutos pro juiz assistir o VT e depois decidir se teve ou não o first down.

Se já não bastasse as emissoras ditarem os horários esdrúxulos das partidas – pergunte a um argentino o que ele acha do horário e ele vai te perguntar porque brasileiro gosta tanto de novela – de criarem bizarrices como João Sorrisão e congêneres, agora vão pautar decisões de tribunal desportivos, resultados de jogo e por aí vai o futebol pro ralo.

E ainda há quem critique o ódio eterno ao futebol moderno. Tristes de vocês que não tiveram chance de assistir uma partida de futebol no Século passado…

Pobre futebol.

AVANTI PALESTRA! 

 

Publicado em 02/09/2013, em Geral, Visão da Arquibancada e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Belo texto Daniel. Deveria servir como material para expelir esse papagaio de Jornal, ele só narra notícia que estão nos periódicos e usa de comentários alheios para emitir a opinião. Qdo não a tem, faz exatamente isso.

  2. Pedro Paulo Marsiglia

    Assim como o Valdivia “forçou” o cartão, o tal de Rizeck, mais um verme gambá assumido do time da sub-raça, “forçou” e muito a suspensão.Globo e Governo corrupto comandado pelo Ninefingers acabando com o prazer do futebol…vermes escrotos

  3. Palmeiras sempre sendo bode expiatório

  4. Parabéns pelo comentário!

  5. Gerson Guarino

    Texto perfeito !

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