A Arrancada Heróica – 70 anos

Muitos e mais renomados palmeirenses já tiveram oportunidade de contar, com maior propriedade, os fatos que serão a seguir reproduzidos. Vou contar o que eu sei e li a respeito.

Em primeiro lugar, há que se lembrar que em 1942 o mundo vivia as mazelas da 2ª Guerra Mundial. De um lado, os países do Eixo (Japão, Alemanha e Itália), do outro, as Forças Aliadas, de quem o Brasil fazia parte. Resultado: tempos de muita perseguição aos imigrantes italianos.

Em abril daquele ano, Getúlio Vargas promulga um Decreto em que proibia em qualquer entidade o uso de nomes relacionados aos países do Eixo, sob pena de perda de seu patrimônio. Essa possibilidade de encampar para si todo o patrímonio do Palestra Itália fazia com que os dirigentes do então inexpressivo São Paulo, à época sem estádio, esfregassem as mãos.

A pressão política e desportiva persistiu mesmo após a troca do nome. A implicância se dava com a palavra [de origem grega] “palestra”, que ainda resistia no nome da recem criada S.E. Palestra de São Paulo.

Enquanto isso, a campanha do time era de causar inveja. Às vésperas de enfrentar o São Paulo, o Palestra contava com 18 jogos, somava 16 vitórias e apenas 02 empates. Marcara 61 gos e sofrera apenas 15. Uma vitória do verde confirmaria mais um título paulista.

No dia 14 de setembro, na semana que antecedeu o jogo do título, o diretor de esportes da cidade de São Paulo, em nome de “entidades superiores”, exigiu que o nome fosse mudado novamente, naquela que era a data limite para o atendimento ao Decreto-Lei de Vargas. E foi então que, naquela noite, o Palestra passou a ser chamar Sociedade Esportiva Palmeiras, excluindo-se o nome da palavra [grega!] Palestra e a cor vermelha que compunha o uniforme em conjunto com o verde e o branco.

O que estava por vir, no dia 20 de setembro seguinte, eu empresto o texto de Miro Tavares que, com muito mais propriedade, narrou [texto integral em http://palestrinos.sites.uol.com.br/Palmeirenses/Cronicas_e_Hitorias/Miro-11.htm é leitura obrigatória]:

Chega-se finalmente o grande dia, o clima em toda a cidade de São Paulo não poderia ser diferente Todas as atenções estavam voltadas para o estádio do Pacaembu, que recebera um enorme público. Ao PALESTRA uma vitória garantia-lhe por antecipação o título Paulista de 42. E também toda a expectativa que acabou envolvendo as torcidas dos dois protagonistas: PALESTRA e São Paulo F.C. Sejam no campo esportivo ou político.

Para “apimentar” ainda mais a partida, fora colocado em disputa o “Troféu Campeoníssimo” (instituída pelo nosso adversário) entre o “trio de ferro” (PALESTRA, Corinthians e São Paulo) que com uma só conquista, ficaria de posse definitiva da equipe que fosse campeã. O referido troféu era uma enorme escultura em bronze em tamanho natural, retratando um jogador de futebol. Hoje, para a nossa alegria, ornamenta a nossa riquíssima sala das conquistas alviverdes. Chegou-se a pensar que aquela escultura que ali está, referia-se a algum atleta alviverde, mas é fruto de nossa laboriosa conquista de 42.

Aqueles “oportunistas e covardes”, ainda não se contentando em ver o PALESTRA, ter sido obrigado a mudar o seu nome, tentaram armar um clima totalmente hostil. A esquadra palestrina, assim que adentrasse o gramado do estádio Municipal do Pacaembu, naquela histórica tarde, seria recebida com uma estrondosa vaia, jamais endereçada a uma equipe de futebol no Brasil.

Sabendo do ardil são-paulino, os palestrinos tiveram a seguinte idéia: O oficial do exército brasileiro o Capitão Adalberto Mendes (3º vice-presidente), adentraria ao gramado juntamente com os jogadores alviverdes, ostentando uma enorme bandeira brasileira. Obs: A imagem de nosso glorioso PALESTRA-PALMEIRAS surgindo ao gramado com a bandeira nacional e o oficial do exército ficou perpetuado em pinturas, gravuras, fotos como: Arrancada Heróica… de 1942!

Como diz a introdução de nosso amado hino: “Quando surge o Alviverde imponente…” e adentra ao gramado do Pacaembu, todo o estádio silencia-se por alguns instantes. Ao invés de hostilidades e vaias, foram nossos atletas esmeraldinos, recepcionados e aplaudidos de pé, tanto pela a gente palestrina, como pelos contrariados são-paulinos. Pois, todos que ali estavam, perceberam, que tantos aqueles atletas alviverdes, como o clube que representavam, eram tão brasileiros, quanto a todos que ali se encontravam. Aqueles entusiastas italianos, assim como amavam a sua antiga Pátria, também, nutriam por aquela nova terra que os acolheu, um enorme carinho.

Mas ao iniciar a partida, aqueles jovens palestrinos em campo, não havia esquecido, dos que os perseguiram e o obrigaram a trocar o nome de seu amado “filho”. Os atletas alviverdes disputavam cada bola e defendiam a meta palestrina, como se fosse a própria vida.

Não demorou muito, e abrimos o placar aos 20 minutos de jogo, através do jogador Cláudio; 3 minutos depois, Waldemar de Brito, empata a partida 1 x 1. Partida nervosa, muito disputada, mas aos 43 minutos da primeira etapa, o PALESTRA, volta a ficar a frente do placar, através de Del Nero. O primeiro tempo termina 2 x 1 para a equipe palestrina.

Inicia-se o segundo tempo, que prometeria fortes emoções aos presentes no Pacaembu, pois a vitória garantia o título de Campeão Paulista ao PALESTRA ITÁLIA, e a equipe são-paulina, só a vitória interessava. Mas para a alegria da imensa massa palestrina, o glorioso alviverde, amplia o placar para 3 x 1, aos 14 minutos da etapa complementar, através do jogador Echevarrieta.

Os jogadores são-paulinos sentiam que nada conseguiram abalar o ânimo daqueles palestrinos. Então começaram a armar uma “farsa” naquela tarde no Pacaembu. Aos 19 minutos do segundo tempo, o árbitro Jaime Janeiro, expulsou de campo o atleta são-paulino Virgílio, após entrada desleal em Og Moreira e assinalou um pênalti a favor do PALMEIRAS.

Os jogadores tricolores recusaram-se a dar prosseguimento a partida, e após se reunirem no meio campo, decidiram sentar-se ao gramado, impedindo com isso a cobrança de pênalti e o prosseguimento da partida. Ou seja, fugiram da possibilidade de uma goleada iminente, pois sabiam, que se com 11 contra 11 as coisas estavam difíceis frente à equipe esmeraldina, tamanha era a disposição que os atletas alviverdes disputavam aquela partida, o que dirá com um atleta a menos.

Para a irritação de todos ali presentes, sejam atletas ou torcedores palestrinos, o São Paulo, resolveu “fugir” de campo, para que a vergonha não fosse ainda maior. O árbitro Jaime Janeiro aguarda o tempo regulamentar e dá a partida por encerrada. Para a alegria da imensa coletividade palestrina-palmeirense, seja presente no estádio, em toda a cidade de São Paulo, ou em qualquer lugar em que houvesse um torcedor palestrino, o glorioso, sofrido, perseguido, injustiçado, mas acima de tudo, AMADO PALESTRA ITÁLIA, sagrava-se CAMPEÃO PAULISTA DE 1942. Melhor ainda, que fora sobre aqueles que mais nos perseguiram naqueles idos de 1942.

Assim encerra-se mais uma página histórica da gloriosa saga alviverde, que desde o ano de 1914, abrilhanta o esporte no Brasil. Uma célebre frase poderia resumir o que foi a conquista do título Paulista de 1942.

“Morre  O PALESTRA LÍDER, e  nasce O PALMEIRAS CAMPEÃO ! ”

Muitos e muitos anos depois, em 2005, a Câmara Municipal aprovou e o Prefeito José Serra sancionou projeto de lei que estabelceu 20 de setembro o Dia do Palmeiras. Desde então, no jogo que antecede a data histórica, o time do Palmeiras tem entrado em campo repetindo o gesto dos campeões paulistas de 1942: Com a bandeira do Brasil em mãos, simbolizando e reencenando a “Arrancada Heróica”. 

Fontes: Site oficial do Palmeiras www.palmeiras.com.br e os levantamentos feitos pelo site www.palestrinos.com.br.

(texto originalmente publicado aqui em 14.09.2010, dia da inauguração do Maluco pelo Palmeiras).

Publicado em 20/09/2012, em Geral. Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Arrancamos tantas conquistas já…quem sabe não arrancamos mais esse “DOCE” da boca de todos os Fdp´s que hj estão tripudiando de nós. QUEM SABE?!?!?!?!?!

  2. .Pedro Paulo

    Parabens….um pouco de historia pra os descrentes provando que nada nem ninguem consegue chegar aos pes do nosso amado Imenso…Grande abraço.

  1. Pingback: Diário de Uma Esperada Redenção |

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